[Crítica] Batman vs Superman: A Origem da Justiça

[Crítica] Batman vs Superman: A Origem da Justiça

O ano é 2016, estamos numa era onde filmes de super-heróis dominam o mercado dos cinemas e tornam espectadores mais críticos quanto às produções, um desafio para estúdios e diretores. Com o início da terceira fase do Universo Cinematográfico da Marvel, verdadeiro dominante do gênero nas telonas, se torna quase impossível a não comparação de qualquer longa que adapta quadrinhos com a franquia liderada pela gigante Disney. Eis que surge então Warner Bros. apoderada de sua DC Comics e com Zack Snyder na manga para tentar quebrar o paradigma formado e mudar o até então padrão de filmes de super-herói numa aposta mais séria e realista por assim dizer. 

Batman vs Superman é um ápice previsto por qualquer um desde seu anúncio, como o próprio título já prediz, a produção apresenta os dois maiores personagens da DC Comics em um embate aparentemente histórico. De início já posso dizer que uma coisa não consigo negar, Zack Snyder sabe fazer uma boa abertura de filme, mesmo dentro do gênero super-herói com Watchmen (2009), Homem de Aço (2013) e agora com Batman vs Superman, nenhuma delas se perde na repetição, cada uma traz sua devida indagação que dita o tema a ser discutido nas próximas horas do longa. Aqui, os paralelos bem fundados com as sequência de destruição do longa antecessor soltam a faísca que incendeiam as motivações da brutal batalha premeditada.

Gosto de dizer que este é um filme quase que inteiramente propriedade de Zack Snyder, é visível o amor que o cineasta possui por essa produção e os personagens desenvolvidos por ele, mesmo imerso na escuridão cinzenta da paleta de cores do diretor, fica evidente que ele escolheu a dedo seu elenco e seus bons olhos acertaram ao menos nesse quesito. Da caracterização aos uniformes texturizados, atores se encaixam muito bem nos papéis que lhes são dados querendo ou não, funcionam na trama escrita por Chris Terrio, o problema aqui fica a cargo da adaptação que é pedida e não entregue. 

Visualmente sim, os heróis são impecáveis (exceto pelo tom sem vida do uniforme do Superman, mais uma vez uma escolha errônea de Snyder), mas personalidades são um ponto a se criticar. O impetuoso Homem de Aço de Henry Cavill é preso mais uma vez na dependência singular de sua carisma e não de sua atuação, ‌o contraste escuro do filme é tão baixo quanto a estima de seu Superman, quebrado por Snyder antes mesmo de definitivamente ser construído, uma falha na criação da esperança que teve início no filme antecessor. Ao final de Homem de Aço, temos um Superman fechado como um material bruto a ser lapidado, porém, Snyder interrompe seu próprio processo de desenvolvimento pessoal do herói com escolhas fragmentam sua essência.

Por outro lado, o Batman de Ben Affleck é cativante, um dos melhores a vestir o manto do herói, mesmo não sendo possuidor de uma atuação marcante, o equilíbrio entre Bruce Wayne e Homem-Morcego que Affleck personifica se perpetua no decorrer na narrativa, embora suas cenas de ação sejam mais inspiradoras que a performance em si, mérito dos dublês e não do ator. Em contrapartida, pouco posso dizer sobre a Mulher-Maravilha de Gal Gadot, que teve sua entrada triunfal estragada pelos trailers do filme, a atriz entrega o que lhe pedem e é isso, nada mais que uma participação na ação desenfreada do último ato. ‌Forte antagonista, LexLuthor funciona como faísca da trama, o personagem é inteligente, mas pouco se assemelha ao Luthor original, não posso reclamar por completo, afinal, o antagonista é bem profundo, carrega pensamentos, ideais e diálogos marcados que deixam uma presença forte na trama, todavia, é impossível dizer que Jesse Eisenberg interpreta o Lex Luthor dos quadrinhos da DC Comics, pendendo mais para a personalidade de um Coringa caricato com mania de controle. 

‌Ambicioso é Batman vs Superman, opta por tons sérios e um universo já pré-estabelecido sem a necessidade de origens repetitivas, fugindo da base fundada por sua concorrente vermelha, acertos e erros acontecem aqui. Seja pelo sucesso de Vingadores à época ou não, é evidente a pressa que diretor e estúdio possuem para colocar seus heróis num patamar mais elevado, as escolhas bem feitas mas ainda sim precipitadas dão um salto entre as etapas de apresentação de sua mitologia e resultam na bagunça da trama principal, é uma bola de neve sem fim que apenas se enrola no acúmulo de informações mal comunicadas. 

O roteiro de Chris Terrio na parceria com Snyder dá um bom primeiro passo, caminha como um paralelo de dois homens bons corrompidos pelo ódio da sociedade, introduz a entidade Superman com referências religiosas que se encaixam na proposta e resumem ‌a relação de amor e ódio com herói num explícito discurso bem elaborado sobre o que é o Filho de Krypton e ainda ‌flerta com terror e suspense nos momentos com o Homem-Morcego. Ao som da trilha sonora impecável de Hans Zimmer, com uma ‌luta bem coreografada e diálogos fortes, vemos um dos maiores embates entre dois seres no cinema, é belo. E é então que começa a desacelerar, o vínculo de filhos com suas mães trabalhado ao longo da trama é uma visão certeira inicialmente que se equilibra no nome das mães dos protagonistas, mas a grande falha de usar apenas disso em diálogos pouco convencíveis na virada abrupta da narrativa se torna o grande pesadelo do roteiro de Batman vs Superman 

É neste início do último ato que a produção desanda, a ganância acumulada surge e faz o próprio filme tropeçar em seus cadarços com a inserção de informações e mais informações mal fundadas que afundam um longa antes prestes a decolar. As falhas no roteiro são difíceis de ser ignoradas, trazem uma importância gigante dentro da trama, falhas essas que mudam por completo o foco dos personagens. É triste ver como um filme bem estruturado até seus 80% (ignorando é claro a paleta cinzenta de Zack Snyder) consegue se auto sabotar nos momentos finais, Batman vs Superman possuía tudo para se tornar um diferencial entre seus igualitários de gênero nas telonas, mas se torna apenas um projeto falho traído pela ambição dos bastidores. Todavia, um fato é certo, ame ou odeie, essa produção ainda será comentada por muito tempo.

Nota: 3,5/5