[Crítica] Bela Vingança

[Crítica] Bela Vingança

A mais recente temporada de filmes vem se destacando pelos nomes na cadeira de direção, além do inspirador Nomadland, comandado por Chloé Zhao (diretora que bem crescendo cada vez mais em Hollywood), outro que aparece roubando as atenções é Bela Vingança (Promising Young Woman), da britânica Emerald Fennell, cuja estreia como diretora teve seu início preciso e efetivo. O longa tem como protagonista Cassie (Carey Mulligan), uma mulher traumatizada por um passado conturbado que vaga suas noites por bares fingindo estar bêbada e, quando predadores mal intencionados resolvem se aproximar, ela ativa sua vingança.

‌Bela Vingança surge imponente, uma verdadeira obra original resultado do ótimo movimento #MeToo, que ganhou forças no ano de 2017 e inspirou pessoas de todo o mundo a quebrarem o silêncio e lutarem pela causa contra o assédio sexual. O roteiro do longa, assinado também por Fennell, trabalha nessa base, expondo a podridão que poucos veem no mal que se enraíza pelas ruas da sociedade e acaba sendo acobertado por mentes pútridas. No papel da protagonista, Carey Mulligan é brutal, uma atuação solene se desbrava na atriz cujas emoções ficam à flor da pele, é maravilhoso ver as transições de Mulligan entre as faces de sua personagem, do meigo inocente ao olhar amedrontador. Em paralelo, o roteiro é forte, pesado em sua mensagem, a vingança premeditada da protagonista interage com o espectador que compra sua luta e se entristece pela história, a infeliz vulgaridade de uma verdade oculta (nem tanto) na sociedade.

A trilha sonora caminha certeira com o roteiro de Fennell, as escolhas das canções são solenes, letras e batidas encontram o ritmo da história e entram na função de narrar os acontecimentos do filme. Músicas como “It’s Raining Men” na apresentação fatal, única e mais que merecida para a protagonista e o clássico exato “Angel Of The Morning” na conclusão são exemplos da trilha impecável.

‌É necessário apontar como o roteiro de Fennell tem alguns momentâneos lampejos que fogem do clima temático da trama, passeando por uma área que destoa do áspero cotidiano da protagonista e mergulha num romance sátiro comum. No mais tardar desse ponto médio encabeçado por Cassie e Ryan (Bo Burnham), tal agridoce é quebrado numa abrupta - mas ainda sim previsível - revelação, que retorna o rumo da trama ao seu amargo costumeiro.

As paletas de cores leves com tons delicados e neutros escolhidas pela diretora funcionam como a máscara criada por Cassie no decorrer de sua vida, a fachada despreocupada que esconde o submundo da vingança anunciada pela personagem de Carey Mulligan. A paleta muda na conclusão ácida da trama, uma explosão de cores sutis mas de exímia presença que enfim expõem a real Cassie cujo propósito se manifesta.

‌O ato final do longa é agressivo, carrega momentos cruciais que prendem o fôlego no desfecho parcialmente esperado porém ainda sim surpreendente, é um filme pouco incomum, mas no todo gratificante e desolador, um real traço que corta quatro riscos contados na finalização cordial de um objetivo. Bela Vingança é em boa parte original, pendendo mínimas vezes ao costumeiro, uma história feroz que retrata verdades desafortunadas na boa direção da estreia de Emerald Fennell, nome este que deve ganhar mais destaques em premiações nos próximos anos.

4,5/5