[Crítica] Cherry - Inocência Perdida

[Crítica] Cherry - Inocência Perdida

É necessário começar esse texto já mencionando o avassalador Universo Cinematográfico da Marvel (aka MCU), afinal, Cherry – Inocência Perdida possui grandes nomes provenientes dessa franquia e que chamam sua atenção para o longa. Curioso já dizer como tais nomes não se equilibram na balança, de um lado temos Tom Holland, o jovem ator atualmente intérprete do Homem-Aranha nas telonas cuja boa performance é apagada em roteiros supérfluos, história que se repete aqui, onde Holland se torna vítima de uma direção errônea manuseada por Anthony e Joe Russo, condutores do grandioso Vingadores: Ultimato (2019) que decaem o outro lado da nossa balança imaginária. 

O roteiro escrito por Jessica Goldberg e Angela Russo-Otstot narra a inquieta vida de Cherry (Holland), um jovem que, ao retornar da guerra, não supera as atrocidades que vivenciou e desenvolve um transtorno pós-traumático, nos capítulos contados a seguir, o garoto adentra no mundo das drogas e, em consequência, começa a roubar bancos para sustentar seus vícios e de sua esposa. Fica visível nesta breve sinopse as camadas sensíveis que o longa dos Irmãos Russo possui, uma aparente bola de neve que deveria ser sentida, tensionada, mas já adianto, o pecado de Cherry cai exatamente nas mãos de seus diretores que não souberam administrar tal trama. 

‌Anthony e Joe Russo são bons cineastas, uma fato talvez discutível, todavia explícito no sucesso que ambos atingiram no Universo Cinematográfico da Marvel, mas é possível, porém, que não tenham se encontrado no gênero de Cherry, cuja narrativa em sua própria essência anseia por um drama mais real. Mostra-se evidente que a reputação que os irmãos construíram no MCU fica em torno do quão bem souberam usar uma expansiva massa de personagens sem comprometer a trama do longa, em Cherry, no entanto, temos o contrário, uma magnânima narrativa que necessita de apenas um personagem a ser aprofundado, a falha surge aqui, visto que o roteiro de uma vida conturbada é contado pelos Russo de um jeito quase cômico, uma tragédia entorpecida sustentada apenas pela bela performance de Tom Holland, mérito aqui desperdiçado.

‌Entre esses poréns, sente-se uma falta de zelo dos diretores pelo projeto, como comentado, são bons diretores, mas que ainda batalham para sair do formulado humor Marvel. Há escassez de ousadia na direção, nem mesmo a quebra da quarta parede funciona como esperado, fator que bagunça a narrativa e derruba o drama aguardado. A uma visão limitada do TEPT (estresse pós-traumático) pouco se aprofunda, um distúrbio aterrorizante que poderia ser um dos focos no drama de Cherry, mas é apresentado meramente como um problema solucionado com drogas. 

‌Embora já tenha deixado evidente, ainda preciso falar, é Tom Holland quem carrega todo o melodrama necessário em Cherry, de fato um de seus melhores trabalhos, o ator foge do padrão seguido na Marvel nos últimos anos e sai de sua zona de conforto (e ainda sim se mostra confortável no diferente), assim como visto também em O Diabo de Cada Dia (2020). É difícil, mas Holland apaga de sua mente o rosto inocente que o ator esbanja naturalmente, condizendo com o título da produção, uma entrega de corpo e alma no papel, embora o mesmo não parece ter sido escrito para ele, são nessas nuances pontuais do jovem que sentimos uma leve comoção pelo abalado protagonista, papel que deveria ser da direção, mas acaba nas mãos de Tom.

É fácil enxergar aqui uma grande inspiração na jornada de Forrest Gump (1994), um clássico da sétima arte estrelado pelo brilhante Tom Hanks, especialmente na jornada em meio à guerra (com direito até mesmo à um Bubba no personagem de Jeff Wahlberg), inspiração essa que, no todo, vai ladeira a baixo, seja na narrativa, cuja diferença em relação ao filme de 1994 é que este protagonista apenas desce na vida ao invés de subir, seja na influência desesperada do longa de Robert Zemeckis que os Irmãos Russo tentam colocar em seu filme, ao menos em Cherry também temos uma ótima atuação de um Tom H.

E ainda sim, no turbilhão bagunçado de uma vida deplorável que acompanhamos no roteiro, uma bela demonstração de amor é apresentada, a química em Tom Holland e Ciara Bravo (Emily) é eficaz, forte e, no mais, bem construída. Nos momentos presenciados da vida do protagonista, é triste como ambos se corrompem na lealdade com seus corpos mas também gratificante ver como nenhum dos dois se perde nos caminhos do coração e sempre nutrem seus sentimentos ambíguos um pelo outro, emoção muito bem representada nos olhares saudosos de Emily que vem a mente de Cherry sempre que o apaixonado garoto fala sobre sua esposa.

Uma pena ver o comprometimento de um ator ser prejudicado por outros, especialmente Tom Holland, que já sofre desse mal com Homem-Aranha e por sinal vem se mostrando cada vez mais um nome na lista de grandes atores dessa geração. Anthony e Joe Russo impõe descontração onde não deveria e desviam Cherry à um caminho importuno e pouco produtivo, um longa que possuía tudo para ser um drama conturbado de grande influencia, mas se perdeu na ineficácia de uma condução inapropriada.

3/5