[Crítica] Homem de Aço

[Crítica] Homem de Aço

É fato inegável que o Superman se consagra no papel de um dos maiores super-heróis já criados na história, a ilustre reputação e o todo o símbolo que o personagem representa o elege como ponto alto dos heróis de quadrinhos. As adaptações do Superman para os cinemas o colocam a altura nas telonas também, tendo ótimos longas nas décadas de 70 e 80 numa bela personificação do personagem feita pelo marcante Christopher Reeve, o que se torna um desafio imenso para alguém que precisa passar uma nova imagem do maior super-herói da Terra em tela, e esse alguém é Zack Snyder.

Snyder vem de grandes produções bem comandadas como 300 (2006) e Watchmen (2009), sendo este último também um longa do universo DC Comics que traz uma abordagem mais palpável do termo "super-herói", abordagem esta que o diretor traz para O Homem de Aço (2013), filme que adapta sua visão do personagem para o cinema. Aqui, Superman é mais humano do que kryptoniano, seu gênio criado é focado em geral na essência do comportamento do protagonista, menos no fato de ser um alien com poderes na Terra, um acerto pontual de Zack Snyder. Isto não se resume apenas ao diretor do longa, mas ao roteiro de David S. Goyer e Christopher Nolan, que já mostraram sua maestria em trazer heróis de quadrinhos para adaptação mais realista na trilogia Batman (2005-2012).

Goyer e Nolan escrevem um roteiro certeiro e Snyder consegue apresentá-lo com êxito em sua direção calculada, os zoom-in do cineasta causam uma imersão de ambiente pouco vista em filmes do gênero, a ação é um deleite de se assistir, sempre bem filmadas e coreografadas, especialmente nas cenas aéreas que trazem frames únicos memoráveis. O primeiro voo do Homem de Aço é soberano, a absoluta combinação de direção e uma trilha sonora impecável, esta que faz Hans Zimmer presente por todo o longa, desde momentos estonteantes à meras cenas no interior do Kansas. 

Nesta exímia combinação de roteiro e direção, Homem de Aço traz consigo uma jornada de aprendizado, Snyder constrói calmamente as distintas pessoas que o protagonista é, antes Clark Kent, depois Kal-El até enfim assumir o manto de Superman. Nos flashbacks apresentados na primeira metade do filme - resultado de uma bela montagem de cenas - os ensinamentos dos pais de Clark, em especial Jonathan Kent (Kevin Costner), oscilam entre fazer o que é certo e se resguardar da humanidade, ensinamentos este que, por melhor que sejam, ainda pecam em cenas difíceis de acreditar que realmente aconteceriam.

Homem de Aço fala sobre esperança e liberdade, na bem apresentada abertura do filme, Jor-El (Russell Crowe) traz ideias que se prevalecem pelos próximos momentos e ditam o rumo da trama. A narrativa caminha sempre na criação da essência do personagem em cima desses paradigmas, são nesses pontos que Zack Snyder traz suas insistentes mas bem pontuadas referências bíblicas, da idade ao símbolo, para ele (Snyder), Superman é a encarnação própria de Cristo, a perfeita escolha para humanizar um deus. 

Aos poucos, a trama se transforma, nada abrupto, mas mudamos de uma origem humana para um filme com toques pitorescos de invasão alienígena que lembram em parte Guerra dos Mundos (2005). Em meio à isso, temos General Zod, um vilão à altura do primeiro filme dessa nova mitologia do Superman, na atuação marcante de fortes expressões do ator Michael Shannon, Zod se apresenta como um vilão cruel e violento fissurado na ideia limitada de destino fundada em Krypton, o que abre mais uma vez a ideia da liberdade.

Mas ao contrário de seu parceiro de tela, o protagonista Henry Cavill, embora uma escolha muito boa fisicamente para o herói, traz consigo uma atuação pouco notável, suas cenas mais emocionais se limitam a gritos secos e breves de comoção nula, as sensações causadas em tela ficam a cargo apenas do roteiro. Cavill se salva ao menos por seu bom sotaque e a carisma natural que o mesmo esbanja, além da boa química com a Lois Lane de Amy Adams, que mesmo sendo um pouco irritante as vezes, consegue ser mais independente e não apenas um mero par romântico.

A fama de Zack Snyder por seus tons escuros e limitados tem um diferencial aqui, Homem de Aço traz boas colorações em tela, quase não parecendo a paleta de um filme do diretor. E, embora tenha um ótimo figurino, as cores daquele cuja esperança é seu maior símbolo veste tons tão sombrios que não remetem aquilo que ele representa, uma falha triste do diretor. Afora isso, Snyder faz um trabalho muito bom na edificação do personagem Superman, uma personalidade bem sólida que, ao lapidada, pode se tornar o máximo do herói nos cinemas, a verdadeira presença do filho de Krypton e da Terra. 


⭐⭐⭐⭐ (Ótimo)