[Crítica] Judas e o Messias Negro

[Crítica] Judas e o Messias Negro

O cinema é uma arte memorável, um fato indiscutível, e as ferramentas utilizadas neste primor são um catalizador que resguarda ensinamentos uma vez esquecidos pela sociedade. Esta é a função de Judas e o Messias Negro, política obra do iniciante Shaka King que retrata a revolução do Partido dos Panteras Negras com a ascensão e queda de seu presidente Fred Hampton (Daniel Kaluuya) na luta pelos direitos civis de seu povo. Em meio à esses eventos baseados em fatos reais, temos o FBI infiltrando o jovem Bill O’Neal (Lakeith Stanfield) no PPN com a função de retratar os passos de seu líder e, futuramente, assassiná-lo.

Judas e o Messias Negro carrega em sua essência a forte lembrança de dois grandes filmes, sendo o primeiro deles Os Infiltrados (2006), do cineasta Martin Scorsese, cuja ciência do infiltrado na devida operação causa uma sensação de perigo iminente e uma surpresa anunciada que, mesmo com o espectador tendo a sabedoria dos planos do agente ingresso, ainda sim se divide com o personagem e impossibilita as chances de saber qual lado o mesmo irá realmente escolher. O segundo filme se fixa em Infiltrado na Klan (2018), longa de Spike Lee preso aos mesmos ideais da mensagem de Judas e o Messias Negro, o recado de ambos os filmes colidem numa mesma luta calculada em palavras precisas dos discursos poderosos, tanto no filme de Lee com Corey Hawkins no papel de Kwame Ture quanto agora com Daniel Kaluuya como Fred Hampton.

‌Shaka King tem uma direção bem localizada, o roteiro adaptado por ele ao lado de Will Berson equilibra os fatos reais cuja narrativa se inspira com a dramatização necessária para entreter, é impossível ver a linha que divide esses dois pontos, realidade e cinematografia tornam-se uma mistura homogênea coesa em sua proposta ao fato de nos créditos finais, onde o breve epílogo narra os reais eventos desta história, não se vê uma finalização com o ar de um documentário teatral (falha de alguns longas do gênero), mas sim uma conexão conclusiva ante à trama guiada até ali.

‌A história é repartida entre Fred Hampton e Bill O'Neal, que compartilham do posto de protagonistas. Hampton, na atuação esplêndida de Daniel Kaluuya, luta pela liberdade de seu povo na exuberância de suas palavras certeiras e a exalação de liderança, Kaluuya é calmo, concentrado em seu papel, nunca escorrega para fora do que é pedido, uma performance impecável. Lakeith Stanfield entrega um personagem crível, a adaptação de uma real pessoa numa representação marcante que insere humanidade às telas, o ator convence na representação dos dilemas que perturbam a mente de seu Bill O'Neal, a angustiante cisão entre lutar ou sobreviver cujos momentos mais tensos surgem à flor da pele nas cenas com o agente do FBI Roy Mitchell - bem atuado por Jesse Plemons aliás.

‌Mesmo sendo um diretor em início de carreira, Shaka King esbanja elegância com suas câmeras, o empoderamento que seus quadros causam nos momentos de selvageria ou nos discursos encorajadores é sincero, humano. O fato de saber ou não os eventos reais da trama pouco importam, King constrói sua história para que seja sentida em cenas esperançosas como o retorno de Hampton da prisão ou em seu assassinato cruel na visão crua do diretor, cuja angústia seca não se crava numa cena explícita mas sim no olhar desolado da viúva Deborah (Dominique Fishback).

‌Cruel, mas necessária, é a ideia que o diretor expõe em seu trabalho, assim como dito anteriormente, tal longa recebe a função de trazer à tona cenas de nossa própria sociedade que infelizmente ainda precisam ser relembradas. Judas e o Messias Negro é uma exímia produção de Shaka King, diretor que deve crescer cada vez mais nos próximos anos, sua visão áspera é pedida em tempos atuais onde discriminação é tema presente de discussões, esperemos que este seja mais um baque que atinja seus devidos propósitos.

5/5