[Crítica] Liga da Justiça de Zack Snyder

[Crítica] Liga da Justiça de Zack Snyder

É interessante, os longas da nova era da DC Comics nos cinemas tendem a se tornar pouco esquecidos, sejam eles bons ou péssimos, ao exemplo de Batman vs Superman, lançado em 2016 e ainda rendendo boas discussões nas rodas de amigos por sua imutável divisão de opiniões, com Liga da Justiça (2017) foi o mesmo, embora o tema das conversas seja diferente. Os problemas envolvidos nos bastidores desse filme são extensos, a mudança do diretor Zack Snyder em meio a produção pelo cineasta Joss Whedon engatou uma luta sofrida nos próximos três anos que sucederam o lançamento do filme, nas ruas do desespero, os fãs mais assíduos de Snyder travaram uma batalha em nome do diretor pela constante busca de sua versão de Liga da Justiça, visto que a versão de Whedon apresentou-se como uma falha grotesca. A batalha foi vencida e em 2021 Zack Snyder enfim teve a oportunidade de revelar seu tão endeusado corte.

Logo de início posso te dizer, ‌narrativamente, Liga da Justiça de Zack Snyder é o mesmo filme antes lançado nos cinemas, todavia, no todo aumenta as proporções da trama e constrói com calma o caminho que deve seguir, a mudança é visível e de grande eficácia, a correção de um erro transmutado à um trabalho bem apresentado. O jeito Snyder de fazer filmes traz de volta o tom franco do diretor que não possui piadas fora de hora para "quebrar" a seriedade da trama, Superman morreu, é um fato a ser discutido dentro do roteiro, o eco de sua morte se estende pelo mundo, seu luto é respeitado e a morte do Homem de Aço é sentida não apenas numa simples abertura (ainda que bem feita com o Everybody Knows da versão anterior) mas durante toda uma trama, é esse luto que perdura e desenvolve os atos de Liga da Justiça.

Snyder sempre teve boas ideias com suas narrativas, mas traz uma mania que querer sempre ser diferente sem motivo aparente, sua adoção ao formato 4:3 para contar sua história sem possuir uma função explícita pouco acrescenta ou decresce a produção geral, um mero parecer do diretor numa tentativa de ser possuidor de um trabalho mais culto. Quatro horas de filme é uma duração um tanto quanto precipitada, a produção carrega takes longos e uma quantidade absurda de slow motions desnecessários que reduzidos diminuiriam a longevidade da película. Não que essas quatro horas sejam cansativas no todo, o ritmo da narrativa colabora no entretenimento que é absorvido sem a dura percepção da passagem de tempo, todavia, a fácil redução para 3h30 seria de grande proveito para os espectadores. ‌Se Batman vs Superman é o ápice do breu comandado por Snyder, sua Liga da Justiça tem uma boa amenizada com seus tons escuros mais leves e disfarçados, a falha nisso se apresenta na baixa saturação que o cineasta coloca no filme, seria de grande diferença se a aparição do Superman alterasse esses tons numa representação de vida enchendo a  tela, mas a paleta cinzenta permanece por todo o longa

Afora tais observações, ‌a Liga da Justiça de Zack Snyder merece o nome da maior equipe de super-heróis dos quadrinhos e possui o épico necessário para um longa desse calibre‌, o diretor apresenta partes desmontadas que vão se alocando no decorrer de seu filme, um funil que alinha momentos difusos em uma trama única e centrada até sua culminação. Em paralelo, os efeitos especiais são pontuais, trazem atos grandiosos com batalhas travadas nas histórias de flashback, uma produção gigante que enche os olhos de emoção. O roteiro de Snyder ao lado de Chris Terrio possui diálogos bem escritos que explicam a narrativa de uma maneira pouco entendível no longa anterior, nisso temos o ‌maior desenvolvimento dos personagens presentes em tela que resultam na união bem construída da Liga, ela é calma, bem estruturada e pode se dizer que possui até uma certa emoção. As raízes do desenvolvimento pessoal dos heróis são expostas e mudam a percepção da presença dos personagens na trama, nestas novas cenas a balança de importância tem seus pesos alterados, ao exemplo de Ciborgue, cuja relação com seu pai é extremamente bem elaborada e de grande comoção, seus dilemas pessoais transformam Victor Stone na alma do filme.

Cada integrante do grupo tem mudanças significantes no crescimento de suas personalidades, ‌Mulher-Maravilha ganha mais espaço com os olhos de Zack Snyder, aqui ela não é vulgarizada como em 2017, mas sim posta como a mais forte entre os residentes da Terra, um ser mítico, poderoso e de suma presença nas batalhas. Snyder trabalha no poderio de Diana e suas companheiras Amazonas, suas cenas apresentadas em tela exalam o ritmo e o temperamento que o diretor uma vez já mostrou em 300. Sua única falha com a Princesa de Themyscira fica a cargo da construção da heroína como uma inspiração, sua violência assassina ante olhos civis não condiz com Diana querendo ser um exemplo para outros logo após isso. Como antes dito, a balança de presença tem seus pesos alterados, não que antes o Aquaman de Jason Momoa possuísse um papel funcional anteriormente, mas suas cenas se tornam reduzidas e, mais uma vez, Momoa é apenas a vaga preenchida de “bombado” utilizável para cenas de ação.

‌A palavra é triste mas necessária ser dita, Barry Allen era de total inutilidade na versão anterior com a única e simplória função de alívio cômico forçado. Agora, Snyder lapidou o velocista escarlate, diminuiu suas piadinhas e lhe concedeu tarefas de extrema importância cumpridas na responsabilidade de entregar cenas de arrepiar a espinha, uma pena ainda ser uma distração humorística fora de hora não ornamental com o restante da equipe, Ezra Miller continua um Flash mal escalado refém de caras e bocas vergonhosas e uma péssimas escolhas da direção na representação de seus poderes. O próprio ‌Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) desta vez consegue receber o cargo definitivo de antagonista, o vilão enfim ganha uma personalidade própria construída como uma peça do conjunto geral do roteiro, suas motivações (antes nulas no corte de Joss Whedon) ganham peso, seu passado não explorado instiga a curiosidade com relação ao grandioso Darkseid, cuja presença amedrontadora impõe respeito apenas com sua aparição, quase uma espécie de religião.

O ‌Batman de Ben Affleck retorna forte uma vez de volta nas mãos de Snyder, não temos mais aquele piadista de frases de efeito visionado por Whedon, com Snyder, Bruce Wayne é um homem desolado que pela primeira vez na vida abre mão da razão pela emoção em busca de sua esperança cravada no escoteiro com o S no peito. Entrementes, Superman foi um dos poucos acertos que Joss Whedon pontuou em sua versão, vislumbrando pela primeira vez um real símbolo de esperança, mas Snyder não fica longe com seu uniforme preto de puro fan-service, o Homem de Aço surge imponente em tela com sua magnânima perseverança que contagia entre seus colegas, um verdadeiro sopro de vida.

Repito, este longa pouco se difere do filme de 2017 em seu propósito final exceto por agora a trama em si ter sentido e coesão, porém, isto acontece até a entrada do último ato, onde surge o estalo que enfim muda a narrativa em comparação ao desperdício de tela que foi o longa de Whedon, os 40 minutos finais da produção trazem a verdadeira essência que Snyder possui em seus trabalhos. Esses momentos derradeiros são outro filme, mesmo que seu desfecho seja praticamente o mesmo, ainda sim é uma sequência brutal com cenas novas representantes de uma ambição corajosa, certeira e carregada de momentos da DC numa proporção nunca antes vista em telas. As últimas duas cenas são extasiantes, um show de emoção, fan-service e surpresas que martelam a cabeça do espectador no pensamento do quão absurdo é o fato de que esse filme ou ao menos parte dele não foi para os cinemas em 2017.

‌No arremate dessa produção, eis aqui algo que este que vos escreve jamais imaginou um dia dizer, Jared Leto merece uma segunda chance no papel de Coringa. É fascinante como uma boa caracterização, um roteiro decente junto à uma atuação caprichada conseguem com menos de três minutos apagar da memória o fracasso de Leto como Palhaço do Crime na vergonha que é Esquadrão Suicida, com Zack Snyder o ator recebe sua redenção como Coringa numa perfeita representação do vilão, os diálogos com Batman são fortes e causam um aperto no coração quando terminam, o desejo é deixado enquanto a esperança de um dia ver mais dessa personificação é criada.  

A Liga da Justiça sofreu com Joss Whedon tentando se adaptar aos padrões coloridos da Marvel que o diretor imaginou ser necessário, mas agora o longa enfim assume seu próprio estilo de contar histórias, é sério, confiante, diferente, é DC. Zack Snyder batalhou e conseguiu o que queria, seu corte do filme é uma carta de amor do diretor para com seu projeto, uma visão única para este universo que, mesmo falha em pontos extraviados, ainda sim é uma bela e resultante adaptação de quadrinhos, resta saber se algum dia tal criação terá atenção de seu estúdio para ganhar um futuro digno.