[Crítica] Mank

[Crítica] Mank

Afastado das grandes telas desde Garota Exemplar (2014), tendo neste intervalo apenas participado da criação da elogiada série Mindhunter, o aclamado diretor David Fincher retorna para a produção de mais uma peça rara em sua filmografia. Mank é um trabalho inacabado há mais de 30 anos do pai do cineasta, Jack Fincher, que retrata os embates do roteirista Herman Mankiewicz na Hollywood da década de 1930 e a sua relação conturbada com Orson Welles durante a criação do revolucionário Cidadão Kane.

Nas mãos da Netflix, a conceituada peça P&B de Fincher é uma história de intimidade com a produção de Welles entre os anos 30/40 e uma de suas várias tribulações nos bastidores, a obra não traz seu foco para a tão comentada questão dos créditos do roteiro de Cidadão Kane, mas sim o árduo e controverso caminho que Herman Mankiewicz (Gary Oldman), nosso Mank, percorreu para o entregar completo nos prazos apertadíssimos que Orson Welles lhe exigia. 

A narrativa de Mank lembra boa parte os relatos da vida de Kane em seu filme, com suas idas e vindas na trajetória do protagonista através dos flashbacks devidamente roteirizados num formato de divisão escolhido por David Fincher, escolha que nos faz transitar entre os momentos do passado e presente de Mankiewicz. Os altos e baixos da história do personagem principal são uma mistura de várias emoções narrando a complexidade do trabalho de um escritor, a vida soturna de um autor que batalha por reconhecimento, prazerosa é a frase “esta é a melhor coisa que você já escreveu”, que quando ouvida causa uma animosidade absurda com a natural satisfação que Gary Oldman expressa ao ouvir tal sentença, um autor sendo elogiado por sua obra traz um sentimento puro e solene para a tela.

Fincher talvez se precipite um pouco no excesso de inspiração que seu trabalho tem em Cidadão Kane, desde trilha sonora (que ainda sim são um acerto de Trent Reznor e Atticus Ross) à estilo de narração, Mank bebe da obra de Welles e faz com que perca um pouco de sua luz própria, uma lua terrestre que se banha no imponente sol que é sua base. Todavia, ainda tem sua marca pessoal, ao contrário do longa de 1941, que no uso da fotografia ilustrava o bem e mal ao redor de seu protagonista e focava nas impressões que seus companheiros tinham de si, Fincher abusa do primeiríssimo plano em Mank na ideia de destacar apenas Herman, seu filme é uma imagem concreta do protagonista e não um quebra cabeça como Cidadão Kane. 

No papel principal, Gary Oldman se consagra em um de seus melhores papéis, interpretando um bêbado abençoado em seu âmago com frases formuladas e ácidas insinuações sarcásticas que transformam jantares em um sentimento de desconforto cômico, o Herman J. Mankiewicz de Oldman caminha sempre lado a lado com suas escritas bem faladas e uma boa dose de álcool. O apoio do ator não fica atrás, o elenco escolhido por David Fincher é sublime no suporte do protagonista, Amanda Seyfried vende uma graça proveitosa que casa com exatidão em suas cenas com Gary Oldman, o perfeito contraste de uma cabeça jovem e inspirada com uma mente cansada e angustiada. Arliss Howard é outro que conquista seu espaço na trama com seus breves discursos emocionados que ganham o espectador (ainda que o mesmo saiba que não passam de palavras vazias e gananciosas). Charles Dance também se destaca na retaguarda de Oldman, um retrato muito bem feito de William Randolph Hearst, aquele que se torna a inspiração para a personalidade de Charles Foster Kane.

Talvez com outro cineasta na cadeira de direção, Mank seria apenas um filme biográfico sem muitos diferenciais, mas nas mãos abençoadas de David Fincher, a obra se torna uma produção minimamente lapidada, um longa primoroso com a história de outro ainda mais sofisticado. Seja proposital ou não, Fincher e Netflix entregam o clássico “filme americano” na melhor maneira que a Academia gosta.