[Crítica] Meu Pai

[Crítica] Meu Pai

‌Melancolia é uma palavra de significado forte, o estado de tristeza vaga que tal termo denomina se torna um ato dificílimo de ser representado, todavia, esta é a palavra perfeita que atribui-se à Meu Pai. Favorito entre os indicados do Oscar 2021, o longa do diretor francês Florian Zeller tomou a frente mediante seus concorrentes pela estatueta de ouro da Academia em um ano com fortes candidatos que consiste desde tramas concisas baseadas em fatos reais à narrativas fortes de lição de vida. E nesta chamada breve que se inicia a bajulação à Meu Pai, cuja simplicidade única não mede esforços para se erguer entre outros grandes.

Na trama do longa, Anthony Hopkins interpreta seu similar de nome Anthony, um senhor de 81 anos que mora sozinho em seu apartamento em Londres e se vê constantemente recusando os cuidadores que sua filha, Anne (Olívia Colman), lhe apresenta para ajuda-lo no dia a dia, um problema que se intensifica junto ao problema de memória que seu pai possui. Sim, é simples, como dito anteriormente, mas esse comum é mestrado por mãos que sabem trabalhar, o diretor constrói seu projeto para que ele ultrapasse o limite das telas e atinja o âmago do público, seja nas autênticas demonstrações de carinho entre Colman e Hopkins (que exalam uma química amável), seja na ambientação imersiva que coloca o espectador na cabeça do protagonista e o faz se perder junto ao mesmo.

Partindo dessa base, vemos como ‌Meu Pai vagamente lembra Memento (2000), de Christopher Nolan, ambos os filmes são construídos ao redor de tramas envolvendo a perca de memória do protagonista que de maneira inteligente entram na mente do espectador e o colocam lado a lado com o personagem da tela, o quebra cabeça é apresentado enquanto a história é vivenciada. A diferença surge quando não temos uma explosão de entendimento como em Memento, mas uma percepção dolorosa da compreensão que Meu Pai estimula, um choque não apenas fílmico, mas também de realidade.

A degradação que a amnésia causa no ser humano é avassaladora, Florian Zeller encarna a representação triste dessa doença em seu filme, o roteiro (escrito por Zeller ao lado de Christopher Hampton) arquiteta uma trama sufocante desde seu início, a criação de um protagonista pouco desejável, mas facilmente amado em um mínimo período. O diretor alcança a proeza de entregar uma narrativa melancólica que passeia por longas como Clube da Luta (1999) ou seu semelhante O Operário (2004) em seus intervalos perdidos de tempo e espaço, todavia, seu filme é sucinto em suas palavras que o consolidam num elemento puro e deveras crível.

No todo, o mais singelo ato dessa produção fica a cargo da atuação de Anthony Hopkins, o ator desaparece no papel e tudo que se vê é a inocência carismática de um belo senhor cuja doença do esquecimento o corrói de dentro pra fora. Hopkins cativa, encanta e surpreende sem nunca expor suas emoções em baques, mas as encaminhando levemente até que as mesmas transcendam as telas, é nesses momentos mansos e desolados que Hopkins brilha ao som de suporte da impassível trilha sonora de Ludovico Einaudi.

‌E de maneira isolada, Meu Pai interessa em outros detalhes com suas mensagens ocultas (nem tanto, na verdade), tais como nas idas e vindas de Anthony em suas recorrentes ilusões frutos da demência decadente que levantam as severas dúvidas do protagonista ante ao seu protegido relógio de pulso e o tornam o objeto mais mitificado aqui, um simples acessório que se transmuta num artefato precioso para um senhor que constantemente se vê tendo seu tempo tomado de si próprio. O carinhoso Anthony busca sem parar os lapsos que lhes são roubados e os objetifica em seu mais importante apetrecho, sua procura pelo relógio ou por aqueles que lhe usurparam é fiel e, quando entendida, devastadora.

O trabalho de Zeller é impagável, uma obra que quebra corações do início ao seu último minuto sem nunca forçar, um filme extremamente emocionante que fascina, apaixona e derrete a alma. Ainda que uma lição sobre pais e filhos, Meu Pai involuntariamente faz pensar sobre a vida, parafraseando O Hobbit, de Tolkien, o longa fala sobre o tempo, aquele que tudo devora e, no mais, é tido como inimigo, todavia deve ser deleitado, pois quando perdido, não pode mais ser encontrado.

5/5