[Crítica] Mortal Kombat

[Crítica] Mortal Kombat

Adaptações cinematográficas de jogos eletrônicos raramente encontram um eixo no qual se apoiar dentro das telonas, o resultado esporadicamente termina positivo e gera ou longas medianos que se tornaram clássicos com o tempo, como Street Fighter, de 1994, e a primeira adaptação da pauta desse texto, Mortal Kombat, de 1995, ou costumeiras decepções como Resident Evil (2002) e o recente Monster Hunter (2020) – coincidentemente ambos de Paul W. S. Anderson e Milla Jovovich. Por outro lado, alguns dos mais recentes dessa lista vem surpreendendo por sua qualidade que funciona como cinema e ainda respeita sua origem, aos exemplos de The Witcher e até mesmo o Tomb Raider de 2018, tais produções prosperaram por um fato simples: elas sabem de onde vieram e não tentam esquecer disso, é partir disso que entramos no foco principal dessa opinião escrita. 

Comandada por Simon McQuoid em seu primeiro filme para o cinema, a nova versão de Mortal Kombat fez o que poucos esperavam ao realmente se esforçar em entregar algo digno do nome dessa franquia, a insistência abençoada de McQuoid com a Warner Bros. para realizar seu projeto com classificação R (ou seja, para maiores de 18 anos) é um dos pontos fortes da adaptação que, mesmo com um baixo orçamento, fez milagres. O diretor é realmente a alma da produção, sua familiaridade com jogos lhe possibilitou a entrega de algo feito de fã para fã, o escorregão fica por conta das exigências de um estúdio, tornando talvez o vilão de Mortal Kombat não Shang Tsung, mas os engravatados da vida real. 

Aqueles conhecedores mais assíduos do game vão perceber logo de início a introdução de um personagem novo, Cole Young (Lewis Tan), protagonista do filme cuja inserção na narrativa foi um dos pedidos feitos pelo estúdio. Na trama, Young descobre que carrega uma herança sanguínea e precisar lutar com seres de outro mundo para proteger a Terra, em tese, uma premissa básica que, no mais, pouco foge disso. A criação do personagem principal é o maior erro da produção, ainda que bem entregue por seu intérprete, Cole Young é um protagonista desalento na história, facilmente descartável e que pouco cria vínculos com o espectador para que tenha alguma importância no todo.  

Afora isso, a nova versão de Mortal Kombat é, como dito antes, uma película criada para os admiradores da saga, desde as ótimas referências à jogabilidade do game aos golpes e frases de efeito que, por incrível que pareça, não são jogadas ao léu por mero "fan service", mas coexistem dentro da trama de uma maneira natural. É nesses momentos que vemos como Simon McQuoid abraça a essência do jogo em seu filme, o problema surge, porém, na intensidade que esse abraço tem, uma vez que o longa tenta ser mais do que de fato é: a adaptação de um game de luta arcade. 

Estamos diante de Mortal Kombat, uma das maiores franquias de jogos de combate da história, e é por conta disso que tais conflitos corporais se tornam o ponto alto do longa, todavia, a tentativa do roteiro de querer ser mais que isso apenas prejudica o resultado final do projeto.  A narrativa escrita para o cinema é rasa na trama de seu protagonista, totalmente previsível (ainda que bonito de se ver) e não traz emoção com seus personagens sustentados apenas pelo peso da nostalgia que carregam, a única ressalva dessa questão aparece na abertura do filme, que se apoia nos ombros da rivalidade entre Scorpion e Sub-Zero e desperta um mínimo senso de curiosidade narrativa.

Em suma, falando de uma forma mais coloquial, Mortal Kombat é ruim e ao mesmo tempo é bom, principalmente nos pontos onde vemos a atuação do elenco em tela, performances como as de Mehcad Brooks no papel de Jax e Josh Lawson como Kano são extremamente fichadas, quase como se realmente tivessem saído do jogo. Tal qual o Liu Kang de Ludi Lin ou a Sonya Blade de Jessica McNamee que surgem com frases decoradas em atuações forçadas (e que de certa forma periodicamente casam com o roteiro). Hiroyuki Sanada como Scorpion e Joe Taslim como Sub-Zero são o ás da produção, mas talvez seja apenas meu lado nostálgico falando, já que, repetindo, ambos os personagens suportam esse ponto nos braços. 

Mortal Kombat tem ‌sequências e coreografias de ação são bem feitas, nunca exageradas e sempre agradáveis aos olhos de um fã da franquia, de fato, único ponto que convida o espectador a ter vontade de ver ao filme uma segunda vez, são cenas como essas que poderiam ter uma maior presença em tela, acabam tendo tempo desperdiçado na trama do protagonista dispensável. Apesar dos apesares, ‌o filme é o que deveria ser, embora poderia ser muito melhor se realmente assumisse sua total essência ao invés de se pendurar numa ideia passável. 

Nota: 3/5