[Crítica] Mulan (2020)

[Crítica] Mulan (2020)

Uma das etapas da era Disney desde 2017 nos cinemas tem como sua estratégia manter as clássicas animações do estúdio em alta com adaptações live-action das mesmas. O plano tem se mostrado um forte sucesso, poucos são os erros que bateram nessa ideia, sendo talvez o mais forte deles em O Rei Leão (2019) com sua computação gráfica inexpressiva, os demais alcançam facilmente o coração do público com suas músicas clássicas e o sentimento de nostalgia, ao exemplo de Aladdin (2019). Todavia, a fraca releitura de Mulan (animação impecável de 1998) conduz a empresa do Mickey Mouse ao seu primeiro escorregão nessa nova fase.

‌A história de Mulan é poderosa, inspirada na real lenda chinesa da mulher que se passou por um homem para entrar no exército no lugar de seu pai, se tornou general e comandou as tropas da China por mais de 10 anos, e quando revelou aos seus soldados que na realidade era uma mulher isso pouco importou para eles pois o respeito que tinham por ela era imutável. Na animação dos anos 90, a Disney fez um bom trabalho, quase que perfeito, os recursos cômicos utilizados na trama pouco afetam o todo da narrativa, porém, ao menos no oriente, a adaptação teve duras críticas quanto ao personagem Shang, que se torna comandante no desenho e uma espécie de par romântico para a protagonista.

‌O primeiro erro da nova visão do estúdio para a heroína chinesa é a falha tentativa de tentar consertar os mínimos erros da Mulan de 1998 em uma adaptação mais crível da lenda chinesa porém, ao mesmo tempo, trazer a nostalgia da animação com esperança de conquistar os fãs antigos. É visível que os grandes estúdios vem sofrendo deste mesmo mal de agradar uma massa instável de público se afundando na própria ganância ideológica, como a Warner Bros. com Liga da Justiça (2017) e a própria Disney com os mais recentes filmes da saga Star Wars, tais escolhas errôneas prejudicam toda uma produção que, na indecisão de um lado a se seguir, não caminha à lugar algum.

Todavia, é necessário ir com uma ‌mente aberta conferir a nova Mulan, esta definitivamente não é a lenda chinesa da animação, o triste é saber que este é o mais superficial dos problemas. Mulan, entre todos os filmes da Disney, é aquele que mais de destaca por suas diferenças entre seus demais e o protagonismo que Mulan exerce sem depender de outros. A diretora Niki Caro, porém, introduz nessa protagonista essências fajutas de nula necessidade cuja função é caída e, no todo, tira boa parte da luta que Mulan realmente quer mostrar. O desenvolvimento do aqui chamado "chi" tira o esforço que a protagonista originalmente passaria e a coloca como uma única mulher que conseguiria realizar seus feitos, uma escolha até funcional na teoria mas mal calculada na prática que no fim das contas rende uma lenda pouco inspiradora.

‌A animação se consagra como aquela da Disney com a trama mais verídica, ainda que possuidora de elementos fantasiosos (como Mushu e o grilo), a adaptação live-action de Niki Caro tenta inicialmente atribuir esses materiais à tela, mas falha completamente na substituição de uma nova fantasia ainda mais fora do contexto, especialmente na criação da personagem de Gong Li, um total desperdício de tela com objetivos unicamente funcionais ao roteiro que desmerece a inteligência do espectador com suas pífias frases prontas e explícitas em seu papel de anunciar as mensagens da história.

Por mencionar o roteiro, a escrita da trama é cansada, seja em momentos inéditos da história ou cenas já visitadas antes na animação, tudo é muito previsível até para o filme em si, nada surpreende. O elenco é plausível, mas não passa disso, a Mulan de Liu Yifei é rasa, não passa a presença pedida pela protagonista, no mais, apenas Donnie Yen tem um destaque maior como Comandante Tung, e é só. Ao menos o ‌figurino é extremamente bem feito, rivaliza com o cenário detalhado falho apenas no excesso de cores cuja superficialidade deixam o ambiente com uma aparência artificial. O mesmo pode se dizer sobre as ‌cenas de ação do longa, divididas entre as sequências hollywoodianas bem coreografadas e o exagero visual do cinema chinês com suas cenas impossíveis. 

Mulan se tornou uma aposta perdida feita pela Disney, de todas as animações que o estúdio tem em sua propriedade para adaptar para o live-action, esta seria aquela com a maior facilidade de conquistar o público (mesmo sem as músicas clássicas que a diretora optou por deixar de fora), mas Niki Caro se perde entre trazer a narrativa para a realidade e ficar com a magia da fantasia, se tornando uma refém de suas próprias escolhas cujo desfecho é uma produção tosca e tristemente vaga.

1,5/5