[Crítica] Os 7 de Chicago

[Crítica] Os 7 de Chicago

‌‌O diretor e roteirista Aaron Sorkin tem uma mão abençoada quando um projeto se resume numa narrativa de belos diálogos convincentes. Com o início que Sorkin teve no magistral Questão de Honra (clássico de 1992 com Tom Cruise e Jack Nicholson) e na magnitude do roteiro de A Rede Social (2010), de David Fincher, seu novo filme chega quase que uma fusão entre as duas obras mencionadas: a dinâmica teatral de uma narrativa centrada num tribunal repleta de pensamentos, opiniões e diálogos cativantes que trazem conhecimento e dúvidas às telas sobre um real fato ocorrido. 

‌O longa, que adapta o famoso julgamento dos (como diz o título) 7 de Chicago, se introduz numa simples e eficaz apresentação de seus personagens através de paralelos que explicam desde o início as posições de cada um ao longo da trama. Nesse rápido prelúdio, conhecemos Tom Hayden (Eddie Redmayne) e Rennie Davis (Alex Sharp), ativistas que trabalham por manifestações não violentas, Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong), do Partido Internacional da Juventude e líderes da contracultura, David Dellinger (John Carroll Lynch), um pai de família pacifista e Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II), um dos fundadores do Partido dos Panteras Negras. Nesse meio de diferentes mas ainda sim iguais membros da sociedade, cada grupo se reúne para manifestar contra a Guerra do Vietnã durante a Convenção Nacional Democrata de 1968 em Chicago.

Este vasto elenco de peso é ótimo em todas as suas facetas, trazendo uma bela diversidade de personalidades, Sacha Baron Cohen é peculiar no excêntrico Abbie, um às da atuação principalmente após sair de um papel tão diferente como Borat, faz uma dupla perfeita com Jeremy Strong, que interpreta o cômico e essencial Jerry. Eddie Redmayne se resguarda como o quieto e justo Tom Hayden, que esbanja uma certa liderança nata, demora-se a criar simpatia pelo personagem, mas ele se finaliza como um dos diferenciais da trama. Fissurado nessa bola de neve que quase não tem fim, ainda temos o inocente, mas temerário Bobby Seale, que mesmo não se encontrando perfeitamente na trama, tem uma grande performance de Yahya Abdul-Mateen II e carrega duras críticas e fortes momentos na situação em que se encontra no presente tribunal.

Tribunal esse que causa uma sensação de histeria, nos sentimos dentro do local, torcendo por aqueles que defendem os direitos humanos. É interessante como o diretor opta por, diferente de muitos "filmes de julgamento", não mostrar as táticas e planejamentos dos protagonistas junto ao seu advogado fora do tribunal, assim como cada presente naquele julgamento, estamos diante de algo novo e, a qualquer momento, algo pode acontecer que mude a balança dos lados, não que realmente aconteça, mas a sensação criada já vale seu momento. 

‌Sorkin tem uma direção certeira, que sabe conduzir a questão política e ainda trazer uma pitada de humor sem que diminua as verdadeiras relações aqui representadas, os paralelos que o diretor faz com as cenas do filme junto às reais cenas das manifestações de Chicago trazem um ar mais verídico à tela, englobando o espectador aos acontecimentos de 1968. Entre essas manifestações e as batalhas travadas entre os manifestantes e a polícia, mostrados em ótimos flashbacks durante a trama, vemos o duro embate do advogado dos sete réus, William Kunstler (brilhantemente interpretado por Mark Rylance), contra o justo, mas ainda sim contrário às ações dos protagonistas, Richard Schutlz (Joseph Gordon-Levitt), recheadas de argumentos pensados que conquistam qualquer um que abrace um "filme de julgamento". E como se não bastasse, Kunstler ainda precisa superar não apenas os limites quase insuperáveis já existentes para seus clientes, mas também a parcialidade do juiz Julius Hoffman (Frank Langella), a causa de irritação durante boa parte da narrativa em suas inúmeras injustiças precárias.

‌Mesmo sendo apenas o segundo filme de Aaron Sorkin na cadeira de direção, seu comando não falha, mesmo não trazendo diferenciais em suas técnicas, o roteiro escrito pelo mesmo compensa como um todo. Os 7 de Chicago é um longa onde a atenção necessita ser redobrada para captar cada momento, cada frase escrita e a diálogo falado e, por fim, cada mensagem entregue, pois mesmo sendo uma adaptação de acontecimentos reais de 1968, ainda sim traz em si pensamentos a serem discutidos atualmente.

3,5/5