[Crítica] Falcão e Soldado Invernal

[Crítica] Falcão e Soldado Invernal

A fase quatro do Universo Cinematográfico da Marvel já ficou marcada como sua era das séries de TV, antes com WandaVision e agora com Falcão e Soldado Invernal, uma escolha sensata ( e claro, monetária) da gigante Disney para diferenciar a franquia e explorar novos projetos. E agora com um segundo programa de TV concluído, fica meio claro o que a empresa do Mickey está planejando, visto que ambas as séries funcionam como aprofundamento de seus personagens e uma prévia calculada para o que realmente importa, os filmes.

Falcão e o Soldado Invernal funciona como uma sequência da trilogia de filmes do Capitão América, especificamente do segundo longa (particularmente dizendo, a melhor produção da Marvel Studios), todo o ar politico e centrado da série traz a mente as discussões embaladas por Steve Rogers em seu filme, além do retorno de alguns personagens e a boa dose de cenas de ação. E não apenas isso, a série, assim como Capitão América: O Soldado Invernal, tem uma das narrativas mais “pé no chão” do estúdio, apesar do famoso soro do super soldado, não temos magia, alta tecnologia como foco ou aliens invadindo a Terra, são humanos batalhando com seus maiores inimigos: os próprios pensamentos.

A série é um reflexo bem feito do trabalho que a Marvel vem aplicando em seus projetos, a representatividade presente na trama é forte, poderosa, especialmente na maneira como Sam Wilson atende ao legado deixado por seu amigo Steve Rogers ou nos olhares admirados de seus sobrinhos contemplando o tio, entrega uma mensagem explicita em cada minuto da série e que, por mais que seja reiterada diversa vezes em múltiplos canais de informação, ainda é de grande necessidade ser repetida: representatividade importa! Dado isso, ‌Sam aceitando o legado de ser o Capitão América é emocionante, necessário.

Os protagonistas são espetaculares, Anthony Mackie e Sebastian Stan se mostram excelentes em suas performance e transmitem uma sinergia muito boa quando juntos, é a real oficialização de um “bromance” já pré-anunciado no decorrer Universo Cinematográfico da Marvel. Interessante como vemos a dinâmica criada entre ambos, uma vez que Stan tinha um espaço maior no coração dos fãs com seu papel e Mackie luta com seu personagem não apenas pelo grandioso manto de Capitão América, mas também pela posição de protagonista que o herói agora precisa. É recompensador vermos a conclusão ideal dessa interação no desfecho da trama, dois colegas que se tornam bons amigos e equilibram seus pesos dentro da história.

Muitos esperavam ver uma pequena aparição de Chris Evans como Steve Rogers nos seis capítulos da série, todavia, mesmo o ator não dando o ar de suas graças, sua presença é sentida durante a trama, quase como se caminhasse ao lado de seus dois companheiros, é através de seu escudo que o antigo Capitão América aparece, uma presença tão forte que se personifica no próprio objeto disputado em tela. Nas mãos de John Walker (muito bem representado por Wyatt Russell), que se apresentou como uma nova versão do herói americano na narrativa, o artefato de Rogers se torna indigno nos atos daquele que o maneja e entristece o espectador, cujas memórias do escudo trazem o sentimento de justiça e liberdade, significados agora manchados.

Sendo a segunda série de TV da Marvel, a comparação com a primeira é inevitável, diferente de WandaVision, que precisa de um conhecimento prévio do MCU para ser assistida mas ao mesmo tempo se distância dele em uma trama mais unitária e isolada, Falcão e Soldado Invernal abraça sua origem e sem mantém fiel às raízes, um verdadeiro filme de seis horas, nem ao menos se perde no formato televisivo. Tal qual a série da Feiticeira Escarlate, esta também traz em seu âmago uma boa discussão sobre família, do bromance entre os protagonistas à relação de Sam com sua irmã, Sarah (Adepero Oduye).

O roteiro da série ‌explora e divaga sobre a complexidade do que realmente existe no limbo entre os antônimos “bem” e “mal”, a abordagem do tema, embora não muito original atualmente, é o condutor da trama responsável por mostrar como cada um possui uma visão diferente dessas duas palavras. O difamado ‌John Walker é o perfeito exemplo disso, ele tem camadas, não é um simples personagem feito para se odiar, há meios que chegam ao seu devido comportamento e o fazem receber não o título de herói ou vilão, mas um clássico anti-herói.

Entre uma jornada de conhecimento próprio e outra de  auto realização, Falcão e Soldado Invernal aparece com poucos episódios, mas que cumprem sua missão, uma espécie de adendo pós terceira fase do MCU com a funcionalidade de trazer emoção e coesão na escolha de Sam Wilson como novo Capitão América. Uma entretenimento barato, porém com temáticas imprescindíveis e bem executadas, no todo, uma prévia fácil de digerir que expande o Universo Cinematográfico da Marvel e prepara o território do que está por vir.

4,5/5